segunda-feira, 26 de julho de 2010

o relato dum mestre

Bem, de fato a noite de gala no V de Verso ficou difícil de trazer a tona com palavras, como ultimamente tem sido com vários sentimentos e gestos que eu gostaria de expressar, ou ideias opinar, mas dando uma voltinha em blogs neste início de madrugada, me surpreendi com o relato sagaz desta figura emblemática e potente no que diz respeito ao histórico da poesia brasilêra; falo do Chacal, então, simplesmente copio e colo as palavras dele aqui*
Sempre me supreendendo, Ricardo!..

V DE VERSO: CANTANDO PRA SUBIR.

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dali direto para a rodoviária. são paulo e saideira do v de verso. lugar da cena: o espaço de convivência do sesc consolação. espaço bom para conviver, mas disperso demais para sentar e ver.

ainda assim a lira foi tangida. um longo show com convidados interessantíssimos. um desfile de craques do texto feito fala e canto. a começar por micheliny verunski, que falou seus poemas acompanhada por I pod com caixinha de som no microfone. sagaz. leva sua banda na bolsa. caco pontes que explorou os periféricos, fera q é. usou seu tradicional parceiro, o megafone, poeta de rua. usou pedais, tubos de plástico, usou a voz e seus ritmos. para quem acompanha – e quem não acompanha caco pontes ? – percebe um crescimento danado no rapaz, hoje dono de múltiplos recursos para expressar sua poesia em expansão. e tivemos a lullaby sister de beatriz mentone e luiza lian. delícia de jazz. de dixie band. de show de sons e vozes. a banda excelente. estréia mundial. parece que em são paulo, as coisas já nascem com competência extrema.

mas a poesia venceu. com joão bandeira e sua apresentação essencial, utilizando voz e som, voz dublada, voz sem som. ele articula, separa e junta, alquimiza. joão bandeira é dos raros.

antes dele se apresentar aconteceu uma performance imprevista. fábio tinha ensaiado com os alunos o poema “greve” de augusto de campos. em seguida entraria joão bandeira, craque também do poematéria. ele se atrasou. então entrei com minha pequena e abusada composição “maria magdá”, um rock que adaptei a uma estrofe do poema "sísifo" de haroldo de campos. falei o poema, expliquei a circunstância, que aqui não cabe, e comecei a cantá-lo. na segunda ou terceira repetição, cada vez mais animada, tentei mandar o pé lá em cima como vi o arnaldo antunes fazer várias vezes. mandei. e o corpo foi junto. levitei alguns décimos de segundo e cai de costas no palco. gloriosa performance. quando me levanto, entorpecido, sob a assuada da multidão, vejo, sorrindo, joão bandeira, recém chegado, parceiro de cid campos, sobrinho do grande haroldo. o venerável clã em breve estaria a par da minha heresia. e meus dias em são paulo, contados. amparado pelo fábio, saí do palco claudicando como um cão avariado. não sem antes chamar joão bandeira e pedir para ele deletar aquele esdrúxulo happening.

e tivemos um excelente poeta de pequenas tiradas de humor e estocadas no baixo ventre. falo do andarilho binho que pensa em invadir o rio com um ônibus de poetas. a dutra toda coberta de impropérios. como há 35 anos atrás, fazendo de trem no sentido inverso, poetas cariocas assolaram o municipal de são paulo. deveriam ser recebidos como heróis no municipal do rio, pelas benfeitorias na auto estima, no aumento de repertório e no despertar da narcose da cultura midiática por uma parcela da periferia paulista. mas acho que eles preferem a lapa e seu aqueduto turbulento. o circo voador deve ser um bom lugar para atracar.

além do binho, meu chapa sérgio vaz, um dos caras da cooperifa, disse ao que veio. ver o sérgio em cena, é se encher de certeza que a poesia foi feita para se dançar. nunca vi um cara trazer o corpo tão bem para o poema. porque ele vem montado na sua verdade. não fala vazio. e aí a palavra vem de dentro do centro do silêncio. e isso repercute, estremece o corpo todo. não é à toa que o cara provocou uma revolução na periferia gigantesca dessa mega cidade. seus parceiros todos lá. até um garoto que me deslumbrou numa noite de cooperifa, um pequeno gênio que nem o nome sei, que começava a atuar um texto de cabeça para baixo, pendurado na grade da porta do bar. pena eles não darem seu recado.

enfim nossa turma de v de verso que apanhou um pouco. mas foi bom para viver o confronto com a algaravia de microfones, público, tempo exíguo, etc, etc. o roteiro de uma programação radiofônica que não levou em conta uma série de interferências do tempo, do espaço, da luz e do número de atrações. perdemos a devida dosagem entre alunos e convidados. nuestra culpa. pero... foi um grande fim de ciclo do v de verso no sesc consolação. o v de verso que já funcionou durante dois anos na UERJ no rio, um mês na galeria b-arco e 3 meses no sesc, em são paulo, mais uma vez cumpriu sua missão. a poesia, nos corações e mentes, na voz e no corpo de algumas pessoas, ganhou tonos. e como um cowboy do velho oeste, o v de verso, dono de sua voz, monta seu cavalo, empina e parte para a próxima intervenção. allez up !



Foto: Vani Fátima

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